Família

Deixa eu te ver com os meus melhores olhos,
sem exigir de mim que me torne cego por ti.

Minha sede de justiça me mantém no sentido
da felicidade, ainda que nos desafie tanto.

O bem e o mal estão lá fora, e também aqui
em cada um de nós, porém não precisa estar
entre dois, para que depois possamos mudar
com preciosa unidade, em alegrias o pranto.

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Implorar por calor

Venha me buscar,
porque andarei sumido,
sozinho outra vez no escuro.

Estou fugindo sim,
fugindo de mim
enquanto posso
me encontrar aqui,
quieto, calado.

Ou novamente
as pessoas me verão
transparente,
como se este
corpo sequer
fosse meu?

Nunca foi meu forte
implorar por calor,
abdiquei de um amor
maternal, para ser
inteiro e justo comigo,
um desamparo eu abrigo
na ausência de quem vem e vai,
de quem entra e sai de mim
sem perceber, e ver que morro
a cada desilusão
de ser dois.

Não posso

Não só pela aceitação
que nos acolhe um no outro,
não apenas pelo tesão
que quase nos deixa loucos,
mas pelas nossas afinidades,
pelas nossas personalidades
fortes,
feitas para ter razão
e compaixão.

Pela superação do passado,
e pelos amores frustrados.

Não posso com teu sorriso,
não fujo dos teus olhares.
O som que sai da tua boca,
as coisas que só tu dizes,
sim, me roubam de repente,
mas mesmo assim, para mim,
faltam meios de romper tuas correntes,
formas de baixar a tua guarda
para tocar no teu ponto fraco,
que se me apresentado voluntariamente,
poderei tratar como a feridas
das quais
antes eu conhecia
apenas os gemidos,
as queixas
de uma dor pelo peito marcado.

O retorno do coração de fogo

Você me fez destruído,
você me fez desconfiado,
você me fez instruído,
você me fez desordenado,
interrompido e quebrado.

E disse: agora seja feliz.

Seja feliz neste labirinto
em linha reta,
feliz neste quebra-cabeça
falto de peças.

E eu acreditei que pudesse,
que pudesse vencer
o mal que me matou
cedo e antes de eu crescer.

De que me vale ter razão,
se certo
certeiro firo um coração
quebrado?

E o meu colado em chamas,
se consola com o planeta
igualmente recriado,
no qual nenhum deus ou diabo
tolere ou curta
o sadismo humano.

Novo sentido

Se for você,
terá de ser
o novo sentido,
meio e caminho
pra felicidade.

Pra que se torne distante o nosso passado,
longe o bastante ao ponto de parecer apagado:
alívio para navegantes de tempos agitados.

Se for você,
terá de ser
a nova alegria,
dona da poesia
de cada dia,
com quem sonhei.

Prataria

Forte e fraca, a linha,
o tal fio de prata,
mais surpreendente
do que ouro e diamantes,
suporta humildes e gigantes.

Inspirado no poema Linha fina de Fernanda M. Lisboa.

Rastros mortais

Tem algo estranho nos céus,
algo pesando nos ares,
poluindo muitos mares
de sangue, em brancos véus.

O prefeito manda controlar
a temperatura,
e nas alturas
uma máquina voa a fabricar
nuvens perigosas,
manchas volumosas
de bário
e outros
venenos letais:
rastros mortais
acima do bem e do mal,
de forma tal,
que meus iguais
nem percebem
o que os assola,
quem os controla
para de nada
saberem a este respeito,
sem direito ao natural
ambiente feito
em amor.

Resta o torpor fluoretado,
e um entardecer arroseado.